O dia ia amanhecendo quando um senhor, deitado em uma cama e com uma máscara de oxigênio, abriu os olhos. Localizado em uma sala isolada, pintada de azul, William Gardes era o único paciente daquele quarto. Ainda não se lembrava o porquê de estar ali, mas já com seus 85 anos, tinha uma idéia do que poderia ser.
Com as mãos latejando de dor, William tentou levantar da cama, mas não tinha forças. Olhando atentamente ao seu redor, viu duas pessoas dormindo em poltronas. Seu filho mais velho Davi e Charles, um dos seus netos, dormiam profundamente, ainda que nas mais estranhas posições. Com muito esforço, Bill, como gostava de ser chamado, retirou a máscara de oxigênio do rosto. Imediatamente um alarme baixinho começou a soar da máquina de respiração.
De um pulo só, Davi acordou e se aproximou de Bill. Charles não demorou muito e já estava de pé. Após abrir um sorriso, correu para a porta e desapareceu. Com os olhos molhados e um sorriso no rosto, Davi se abaixou em direção a Bill.
- Pai, como é que você está? Você está bem? – perguntou ele.
- Sonhei com a Grande Guerra, Davi – disse ele, levando a mão ao ombro do filho – Eu vi tudo como se estivesse acontecendo de novo…
- Não fale nisso pai, descanse… – sussurrou Davi, já com seus 60 anos, mas com a saúde e postura de um homem muito mais novo.
- Não… Eu preciso te contar… Você tem que saber… – falou Bill, enquanto Davi recolocava a máscara de oxigênio e arrumava os travesseiros para o pai se acomodar.
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18 de Maio de 2009
Era fim de tarde quando o jovem William saiu do colégio. O jovem, de 16 anos, caminhava lentamente pelas ruas de Jamestown, indo para casa. Com o céu azul e limpo, o calor era bem forte. Após passar a tarde jogando baseball com os amigos, ele havia retirado sua camiseta suada, demonstrando um porte físico bastante invejável. De estatura mediana, com cabelos negros, rosto fino e olhos verdes, era sucesso entre as meninas. Nada que ele já não soubesse.
Após caminhar várias ruas, passando por muitas casas típicas americanas, Bill finalmente chegara a sua. Branca, com dois andares, não fugia muito do estilo da cidade. O carro, uma minivan, já estava na garagem, sinal que sua mãe estava em casa. Com passadas largas, venceu escadas e a varanda, abrindo a porta de casa.
A sala, bem espaçosa, tinha duas poltronas e um sofá. A televisão, de 40 polegadas, estava ao fundo. Bem ao lado a mesa de jantar. William largou a camiseta e caderno que trazia nas mãos em cima da mesa e ligou o aparelho.
- “Estamos falando ao vivo da sede das Nações Unidas, em New York, presenciando um dos maiores acontecimentos da história. Os líderes de todos os países estão aqui reunidos, em uma sala de imprensa, para anunciar o maior tratado de paz já feito pela humanidade. A reunião parece ter acontecido às pressas, já que o evento não estava agendado. Líderes da Europa e América do Sul foram os primeiros a chegar, no início da noite de ontem, seguido por lideres africanos durante toda a madrugada. O restante chegou hoje pela manhã, pegando a imprensa mundial de surpresa” – dizia uma repórter de um canal de notícias, enquanto William aumentava o volume e se sentava em uma das poltronas – “Após uma tarde de reuniões a portas fechadas, o porta-voz da ONU convocou uma coletiva de imprensa. Neste momento, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon esta terminando seu discurso sobre a importância da paz e da igualdade entre povos” – silencia a repórter, para dar lugar ao discurso.
- Mãe… Oh mãe! – gritou William, olhando para a cozinha – Vem ver isso aqui!
- O que foi? – respondeu ela, entrando na sala, com um pano de prato na mão – O que está acontecendo?
- “Nesse exato momento, o presidente de Israel, Shimon Peres, e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, estão sendo os primeiros a assinar o tratado. É um momento histórico! E agora, se cumprimentam para as fotos…” – continua a repórter, enquanto a imagem dos dois presidentes aparecia na tela.
- Mas mãe… – disse William.
- Não faço a menor idéia, filho… – respondeu ela.
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Não demorou muito para Charles retornar ao quarto acompanhado de duas mulheres. Maria, a mulher de William e Sofia, filha do casal, chegaram juntas e entraram pela porta. Ao ver o marido de olhos abertos, a senhora Gardes começou a chorar e foi se aproximando da cama do marido, sendo abraçada por sua filha. Uma enfermeira também entrou no quarto e começou a checar todos os aparelhos, para ver se tudo estava em ordem. Logo em seguida saiu, deixando a família a sós.
- Oh Bill… Bill… – sussurrava Maria, sentando a cama do marido e recebendo um beijo do filho mais velho, Davi – Como é que você esta? Você nos deu um grande susto…
- Ele vai ficar bem, mãe – falou Sofia, tentando acalmar a mãe, apesar de ela mesma estar bastante apavorada – Pai, que bom que o senhor acordou. Estávamos preocupados…
- Estou bem, estou bem… – respondeu o homem de cabelos grisalhos, mesmo que sua aparência demonstrasse o contrário – Eu e o Davi temos que conversar…
- Não pai, isso fica para depois… – argumentou Davi, retirando seu blazer e jogando sobre a poltrona do quarto.
- Ele veio até você… Foi ele que te chamou para aquela conversa na fazenda… Eu sei – sussurrou William, tentando parecer o mais saudável possível.
- Quem? De quem vocês estão falando? – perguntava Sofia, olhando entre o pai e o irmão mais velho.
- No nosso aniversário de casamento, filha. Os soldados avisaram que alguém queria falar com seu irmão… – disse Maria, enxugando as lágrimas com um lenço e se levantando da cama.
- Não importa pai, não era nada relevante… Assuntos do governo apenas – respondeu Davi, sentando-se na poltrona e olhando para o pai.
- Meu neto, faça um favor a seu velho avô… Leve sua mãe e sua avó a lanchonete… Teu tio e eu precisamos conversar – disse William, enquanto apertava as mãos da filha e da mulher.
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03 de Abril de 2010
William e mais três amigos estavam sentados em uma mesa de um restaurante fast food, localizado no centro de Jamestown. Estavam ali há pouco tempo, mas mesmo assim já haviam feito seus pedidos e estavam prontos para devorar seus sanduíches. Era tarde e apenas os quatro garotos se encontravam no local. A televisão ligada prendia a atenção de William.
- “Hoje, o Conselho de Meio Ambiente da ONU divulgou o relatório sobre o Tratado de Preservação, assinado há exatamente um ano na sede da ONU, em New York City. Os números revelam que os desmatamentos no mundo diminuíram em 90%, como também os reflorestamentos aumentarem em 47%. Em torno de duzentas e quarenta reservas naturais foram criadas, principalmente na América do Sul, África e na Austrália. A poluição também diminuiu. Comparado aos índices de 2009, o ar tem cerca de 60% menos gases poluentes ou que agravam o efeito estufa. Os níveis de dejetos e outras substâncias jogadas no mar e rios chegou a quase zero, durante este período. Outros elementos também destacados no relatório foram o aumento da reciclagem e o tratamento e limpeza da água…” – dizia o apresentador do programa, enquanto William ia beliscando as batatas fritas. Logo o pedido chegou, silenciando a mesa completamente, já que todos estavam com a boca cheia. Após dar algumas mordidas em seu hambúrguer, William voltou a prestar atenção na televisão – “O presidente Barack Obama divulgou, em nota oficial, que está satisfeito com os números e que esse é o rumo que o mundo deve seguir. Ele ainda alertou que muito ainda tem de ser feito, mas que seguimos no caminho certo. Barack Obama ainda diz que tempos de mudanças virão, mas a humanidade estará preparada, pois finalmente nos importamos com o ecossistema do nosso planeta…”
- Hey Michael, conseguiu a vaga lá pra Universidade? – perguntava um dos amigos de William, o mais baixinho de todos.
- Mandei meu currículo, mas acho que não vou não… Estou pensando em ir pra alguma universidade comunitária por dois anos, economizar grana e conseguir comprar meu carro… Depois quem sabe eu vá para lá… – respondeu o outro, apreciando seu pedido – E tu?
- Estou esperando a bolsa, mas sabe como é… – respondeu o baixinho – Pelo menos eles estão dando muito mais bolsas agora, então tenho chance. Mas é esperar pra ver! E você Will? Vai fazer o que da vida?
- Não sei John… Acho que vou pro exército… – respondeu William sem pensar.
- Exército? Ta ficando maluco Will? – perguntou Michael – Cara, o exército vai acabar… Estamos em paz, vários tratados sendo feitos, passando direto na televisão… Vai fazer o que lá? Ficar cuidando das redondezas de reservas florestais pra nenhum urso escapar? Só falta o James falar que vai pro exército também!
- Não seria uma má idéia… – respondeu James, o único dos colegas que ainda não tinha manifestado nada – Vou entrar pro exército também…
- Ah para com isso! Vocês andam fumando alguma coisa, só pode… Depois dessa vou lá pra carro… – disse Michael, largando alguns dólares na mesa e saindo porta afora.
- Vou ao banheiro, já volto ai – disse John, indo para o outro lado do restaurante.
- Não falou sério sobre o exército, né? – perguntou William a James – Seus pais podem pagar sua faculdade, você pode conseguir emprego ou sei lá, qualquer coisa! Já não é a mesma coisa pra mim…
- Falei sério Will… Tem algo acontecendo que nós não sabemos. Se o mundo realmente está em paz, por que vemos vários recrutadores espalhados por ai? – perguntou James, se levantando, largando algumas moedas na mesa e caminhando para a porta – Além disso, ele sempre diz que algo vai acontecer no futuro. Espero estar bem preparado quando acontecer… – terminou ele, apontando para Barack Obama, que aparecia na televisão.
- Vamos embora… – falou John, voltando do banheiro.
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Charles obedeceu à ordem do avô e ajudou a mãe levando dona Maria para fora da sala. Um médico e outra enfermeira entraram no quarto e fizeram um rápido check up nas condições do senhor Gardes. Após algumas perguntas e exames, o médico saiu acompanhado da enfermeira.
- O que ele veio propor Davi? – perguntou o velho Bill, logo quando o médico fechou a porta.
- Nada que ele já não tivesse pedido pai… – respondeu Davi, vendo que era melhor responder logo ou não teria escapatória.
- Mas você aceitou? – questionou William.
- Claro que não – disse Davi, rapidamente.
A expressão de alivio foi evidente no rosto de Bill. Com os olhos fechados, parecia estar pensando ou lembrando de algo. Por outro lado, Davi se levantou da poltrona e começou a caminhar de um lado para o outro.
- Achei que isso nunca chegaria pai… Pensei que eles estavam apenas fazendo uma espécie de jogo político… Mas não… Eles estão levando a sério… Estão crescendo – falava Davi, ainda caminhando.
- Em que ano estamos? – perguntou Bill, ainda de olhos fechados.
- Como assim pai? Estamos em 65 d.G. – respondeu Davi.
- Já faz 67 anos… – disse Bill abrindo os olhos e sorrindo para o filho.
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03 de Julho de 2011
Era noite e a base militar localizada nas redondezas de Jamestown se agitava. Na véspera do feriado de Independência Americana, todos os carros, tanques, armas e o que mais fosse usado no desfile cívico, deveriam estar prontos. A essa altura, todos do quartel estavam de pé, de um lado para o outro, checando duas, três e mais dezenas de vezes. Tudo tinha que estar perfeito.
Mas para William e James, isso não era preocupação. Eles foram um dos poucos que não encostaram um palmo em nada do desfile. Em compensação, os dois estavam fazendo a vigia da noite no setor oeste. Já estavam ali há algumas horas, mas a noite ainda era longa. Caminhavam pela floresta que cercava o quartel e quando cansavam, retornavam para seu posto, se encostando aos pilares da guarita, para descansar.
Tudo seguia calmo. O sono batia, mas William se mantinha de pé, acordado. James, por sua vez, cansado, subiu, sentou-se na cadeira e começou a limpar seu rifle. Mais alguns minutos se passaram e a lua cheia, bem no meio do céu, dizia a William que já era quase meia-noite. Mas algo chamou a atenção dele.
Uma série linhas, como se fossem de fogo, partia em direção ao céu e quando chegava a determinado ponto, explodia. Logo vários clarões e borrões avermelhados e alaranjados surgiram no céu. Sem que estes tivessem desaparecido, mais linhas subiam, geravam explosões e iluminavam o céu. As linhas pareciam sair de vários lugares e todos muito longe dali. James não percebeu tal fenômeno, mas escutou algo.
Um alarme começou a soar do quartel-general. Apesar de estarem um tanto longe e em um ponto mais alto no meio da floresta, puderam ver uma movimentação intensa. Soldados corriam desesperados com rifles na mão e atirando. James, o mais rápido que pôde, montou seu rifle e saltou da guarita. Lado a lado, os dois correram para o quartel. Então, pequenas explosões ocorreram em várias partes do quartel. Uma onda que distorcia o ar e emitia um zumbido se espalhou rapidamente, apagando todas as luzes, explodindo aparelhos elétricos e geradores.
Assustados, William e James pararam. Foi o tempo de ver centenas de esferas metálicas serem arremessadas sobre as suas cabeças, com destino ao quartel. Antes que pudessem se virar, outras explosões e mais uma onda seguida de um zumbido. Todos os veículos e aparelhos movidos a qualquer tipo de combustível explodiram. Gritos de socorro e dor ecoaram de todos os lados.
Bill olhou em direção a floresta e viu vultos muito magros, com mais de 3 metros de altura correndo na direção deles. Sem pensar, começou a atirar, derrubando dois ou três. James imitou William, enquanto os dois recuavam para trás. Mas era tarde.
Cobertos por capuzes e sobretudos, os inimigos desconhecidos avançaram rapidamente. Sem tempo, os dois soldados pararam de atirar e correram, em frenesi, para o quartel, seguidos pelos inimigos altos. A escuridão era quase completa, exceto pela fonte de iluminação vinda dos disparos das armas e do céu em brasas. William, enquanto corria, percebeu que o quartel estava sendo invadido. Homens ou seres, do tamanho de gorilas e cobertos por capas e capacetes negros, avançavam na direção oposta a sua, se protegendo e atacando os soldados que estivessem pelo caminho.
James puxou Bill pelo braço, desviando o curso dos dois para os restos de veículos e tanques, que estavam enfileirados no pátio, mais a direita do quartel. Soldados tentavam formar grupos e se dirigiam as duas frentes de batalha, atirando. Enquanto corriam, William e James viam companheiros e amigos, cobertos de sangue, sem braços e pernas, pedindo ajuda. Muitos estavam mortos.
Ao se esconderem atrás de alguns destroços, William e James puderam analisar o que estava acontecendo. Os seres altos atiravam com armas que disparavam rajadas de lasers, atacando soldados e os seres em forma de gorila. Estes últimos, por sua vez, pareciam ter as mesmas armas e tentavam atacar apenas os seres altos. Mas inevitavelmente, soldados eram atingidos, enquanto tentavam responder com seus rifles.
Foi então que Bill percebeu. Aquela batalha não era deles nem dos outros soldados. Eles apenas foram incluídos nela. Ao olhar para o céu, viu que as linhas de fogo aumentavam e várias luzes, como se fossem estrelas cadentes, caiam em direção a Terra.
- James, o que é que está acontecendo cara? – perguntou Will, assustado.
Não houve resposta. James já corria em direção a batalha, atirando. Sem pensar, William conferiu seu carregador de munição, e correu para ajudar o amigo. Mal sabia ele que esta seria apenas a primeira batalha…
Continua…
Dica de música (abrir em outra página): A Way of Life – The Last Samurai Soundtrack
Escrito por ignotuswriter